HISTÓRIAS DE ALPENDRE

A Botija da Alma


Era uma vez, um pobre vaqueiro que morava em uma casinha distante e escondida do mundo, encravada no meio das serras dos sertões ardentes do Seridó. Um belo dia lhe apareceu uma alma que enviou o pobre vaqueiro numa jornada: - "Vê esta longa estrada? Segue por ela sem te desviar. O reino para onde vai está no final dela. Por todo o caminho levará está botija de barro, à qual entregues ao rei daquele lugar e receberá tua recompensa". O pobre vaqueiro aceitou, e conforme lhe foi ordenado, partiu o vaqueiro, levando a preciosa botija.

A estrada perdia-se de vista. Atravessava planícies quentes e pequenos rios do sertão. Algumas vezes se estendia pelo alto das serras, outras vezes pelo fundo dos vales. Havia trechos de árvores que proporcionavam sombras, mas havia outros áridos.

Passados muitos dias, o vaqueiro encontrou uma caravana de falsos ciganos. Estes insistiram e acabou por convencê-lo á seguir com eles. Logo, ele aprendeu a arte de trapacear e mentir, fingindo ver na palma da mão o destino de crédulos. Entre os vadios, o vaqueiro adquiriu o hábito do desleixo.

Enganado e enganando, não viu o tempo passar. Um dia, como se acordasse de um pesadelo, lembrou-se da ordem da alma e foi procurar a botija. Achou-a jogada, empoeirada e com muitas trincas, que o vaqueiro havia esquecido num canto. Tomou-a e voltou para a estrada. Mas não por muito tempo! Bastou encontrar a primeira subida de uma serra para abandonar outra vez o caminho, procurando o atalho mais fácil.

Assim acabou por se deparar com uma cidade onde o vicio do jogo, bebidas e cigarros, tomaram conta de si. O vaqueiro ficou ganancioso, achou que poderia ganhar ali muito dinheiro naquela cidade tão movimentada e iluminada. Adquiriu novos vícios.

Com o tempo, tornou-se fraco e doente. Perdeu tudo o que tinha, foi desprezado e expulso da cidade. Na sua miséria, lembrou-se mais uma vez da botija e da ordem da alma. Sentiu que a última chance de sua vida era terminar a jornada e receber a recompensa.

A botija, cujas trincas tinham se tornado rachaduras, estava jogada em um canto. Havia perdido todo brilho e beleza.

Cansado, o vaqueiro retomou a estrada. Agora, já não havia ciganos que se interessassem por ele, ou quem lhe desse trabalho. O vaqueiro estava feio, envelhecido, doente e fraco.

Com sacrifício, chegou finalmente ao seu destino. Vendo os majestosos portões do reino, o primeiro sentimento que teve foi de remorso. Desperdiçou tanto tempo por nada.

Imediatamente procurou o rei e lhe contou sua história. Entregando-lhe a botija, disse:

- "Majestade, eis a botija da alma! Estou velho, cansado e nada tenho na vida. Rogo que me concedas a recompensa, para que eu descanse em paz".

O rei abriu a velha botija e verificou que estava completamente vazia.

O rei disse: - "Pobre vaqueiro! Não cuidastes desta botija, pensando que estava vazia. Na verdade, ela trazia tua recompensa: o fino e valioso ouro em pó que nela foi colocado e tu deixaste cair pelas trincas e rachaduras. Se tivesse ouvido a voz daquela alma que te enviou, terias guardado este tesouro. Assim também foi tua vida. O teu corpo era a botija e a tua alma o ouro que nela continha. Deixando o caminho no qual devias andar, adquiristes males e vícios, trincando teu corpo com o pecado e a doença, tal qual está botija envelhecida. As sublimes virtudes, o amor, a bondade, a fidelidade e a obediência, foram levadas da tua alma, assim como o ouro foi derramado da botija pelo seu longo caminho, sem que tu percebesses. Hoje não tem recompensa. Está vazia a tua botija, como vazia está a tua alma.”

Moral da história:

Sábio é o homem que guarda a sua botija, preservando a sua alma. Terá sempre um precioso tesouro do qual virá paz, alegria e a recompensa final.

Língua Portuguesa:

'Botija' ou 'Butija'?

A primeira forma é a correta. “Botija” não é uma palavra muito utilizada no cotidiano, a não ser na famosa e difundida expressão “pegar com a boca na botija”. Nesse caso, significa um vasilhame (de barro ou metal) em forma de garrafa ou pote, muita usada antigamente para guardar objetos valiosos.

Fonte: José Dantas, para OpenBrasil.org
Foto: A/D - Arquivo OpenBrasil.org

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