HISTÓRIAS DE ALPENDRE

O Boitatá / Fogo Batatão


O Boitatá é uma entidade que protege as matas e sempre castiga os que põem fogo no mato.

Quase sempre ele aparece sob a forma de uma cobra muito grande, com dois olhos alaranjados enormes, que parecem faróis. Às vezes, surge também com a aparência de um boi gigantesco, brilhante.

Fogo batatão como é conhecido no sertão, é uma grande cobra, transparente que incandescia como se estivesse queimando por dentro. É um fogo de cor azul, que não queima o mato seco e tampouco esquenta a água dos rios, o fogo simplesmente rola, gira, corre, em volta do ser, iluminando as noites frias e escuras por onde passa.

A história começa assim: Fazia bastante tempo que havia anoitecido. As pessoas estavam apavoradas, pensando que o dia não voltaria mais. E como a noite estava durando muito, tudo ficou desorganizado. Não havia mais carne. As colheitas não podiam ser feitas no escuro e ficaram perdidas. Todos estavam cansados da escuridão, daquela noite estranha, onde não brilhavam a lua nem as estrelas, onde não se ouvia um rumor, nem se sentia o cheiro dos pastos e o perfume das flores.
Tão grande era a escuridão, que as pessoas tinham medo de se afastar e não encontrar mais o caminho. Ficavam reunidas em volta das pequenas fogueiras, embora as brasas, cobertas de cinza, mal esquentassem... Ninguém tinha coragem sequer para soprá-las, tão desanimados estavam todos.

Não muito longe, numa gruta escura, vivia A Boiguaçu - a Cobra Grande - quase sempre a dormir. De tanto viver no escuro, seus olhos tinham crescido e ficado como dois faróis.

No início da longa noite, caiu uma chuva tão forte e seguida, que todos os lugares baixos foram inundados. Os bichos atingidos correram, aos bandos, para os lugares mais altos. Só se ouviam berros, pios, gritos. O que salvou as pessoas foram às fogueiras que, então, havia sido acesas. Não fosse isto, não teriam sobrevivido diante daquela multidão de bichos apavorados.
A água também invadiu a gruta onde morava A Boiguaçu. Ela custou muito para acordar e quase morreu afogada. Por fim, despertou; percebendo o perigo, deixou o esconderijo e seguiu para onde já estavam os outros bichos.

Diante da necessidade, todos acabaram ficando amigos: perdizes, onças, cavalos.... Menos A Boiguaçu. O seu mau gênio não lhe permitia conviver com os outros. Ficou de lado, o mais longe possível.

A chuva cessou, mas com a escuridão que fazia os bichos não conseguiram encontrar o caminho de volta. O tempo foi passando e a fome apertando. Começaram as brigas entre eles. Brigavam às escuras, sem enxergar nada! Somente A Boiguaçu via tudo, com seus olhos de fogo.

Acontece que, se os outros animais sentiam fome, A Boiguaçu também andava com o estômago no fundo. Só não havia atacado por causa da grande quantidade de animais.

Se a cobra podia ficar muito tempo sem comer, os outros bichos já não podiam mais.
Ela percebeu isso e viu que era chegada a hora. Preparou-se, então, para o ataque. O que comeria em primeiro lugar? Um cavalo? Uma onça? Uma perdiz? Eram tantos, que ela nem sabia.

Os bichos têm preferencia por determinada coisa. A Boiguaçu gostava especialmente de comer olhos. Como era grande a quantidade de animais que ela podia atacar, naturalmente ia ficar satisfeita comendo apenas os olhos.
O animal que se encontrava mais perto era justamente uma enorme onça pintada. A Boiguaçu atacou-a. Fosse em outra ocasião e a onça não teria sido presa tão fácil, não! Porém, enfraquecida pela fome e cega pela escuridão, ela nem reagiu. A Boiguaçu matou a onça e comeu-lhe os olhos.

Logo depois, atacou outros animais. Mas só comia os olhos.

Gostou tanto que não fazia outra coisa. Ou melhor: também dormia. Quando estava satisfeita, recolhia-se num canto e dormia, dormia.... Depois, quando a fome voltava, ela retornava ao seu trabalho de matar os companheiros.

Como sua pele era muito fina, ela começou a ficar luminosa, com a luz dos inúmeros olhos engolidos. Os que viram a cobra não reconheceram mais A Boiguaçu e pensaram que fosse uma nova cobra.

Deram-lhe, então, o nome de O Boitatá / Fogo Batatão, ou seja, cobra de fogo, nome muito apropriado, pois realmente ela era uma grande listra de fogo, um fogo triste, frio, azulado.

A partir de então, as pessoas não tiveram mais sossego. Viviam com medo de ser atacadas pelo monstro. Do jeito que ele andava matando os bichos, logo necessitaria atacar as pessoas.

Entretanto, tiveram sorte. A preferência do Boitatá / Fogo Batatão foi a sua própria perdição.

Só comia olhos e, assim, foi ficando cada vez mais luminoso e mais fraco, também, pois os olhos não sustentavam, embora lhe satisfizessem o apetite. Tão fraco ficou que acabou morrendo, sem conseguir sequer sair do lugar!

O monstro morreu, mas alma da sua luz esparramou-se pelos açudes, lagos, serras, matas fechadas e cemitérios e hoje pode tomar a forma de cobra ou de touro. Parece que, por castigo, O Boitatá / Fogo Batatão ficou encarregado de zelar pelas matas.

Nomes comuns:

Baitatá, Batatá, Bitatá, Fogo Batatão, Boitatá e Biatatá.
Entre os índios: Mbaê-Tata

Origem Provável:

É de origem Indígena. Em 1560, o Padre Anchieta já relatava a presença desse mito. Dizia que entre os índios era a mais temível assombração.

Já os negros africanos, também trouxeram o mito de um ser que habitava as águas profundas, e que saía a noite para caçar, seu nome era Biatatá.

Fonte: OpenBrasil.org - Lendas brasileiras
Foto: A/D - Arquivo OpenBrasil.org

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