HISTÓRIAS DE ALPENDRE

Serra dos Dois Meninos


A novidade do fim de ano da família Galvão era a tão esperada viagem à Fazenda Sant’Ana, propriedade recém adquirida, lá pras bandas do Seridó. Partiram de Natal ainda por raiar o dia, no Jipe da família iam: os pais, Domingos e Maria; o filho mais velho Alfredo; as moças, de apelido Pepe e Iaiá; os garotos, José e Neco; e Joana, a cozinheira. No caminho as cidades de Currais Novos, Acari e Caicó, depois desta última, apenas sítios ou fazendas aqui e acolá nos caminhos de terra e pedra limitadas pela caatinga de um lado e outro. Depois de muita poeira, finalmente, chegaram a Fazenda Sant’Ana, que em suas vastas terras destacava-se: um casario imponente e três serras, não menos vistosas, que logo despertaram a curiosidade dos dois caçulas, José e Neco.

Logo na chegada, o S. Domingos anunciou: “Teremos a ‘ferra do boi! ’”. No dia seguinte, aquela atmosfera composta pelos vaqueiros, o som do aboio, as rodas de conversa à luz do luar e as festanças, conseguiram fascinar a família vinda de Natal. Os vaqueiros costumavam contar causos acontecidos nas serras, principalmente na serra do Capitão, uma das três serras da propriedade, as histórias aguçava a curiosidade de José e Neco.

Desde a chegada à fazenda, eles faziam planos de se aventurarem pelas serras, planejaram durante dias, numa noite decidiram levar a cabo os seus planos. No dia seguinte, ainda bem cedo, munidos de suas mochilas e facões, rumaram para a serra do Capitão. No início da caminhada acharam fácil, a caatinga ainda não era obstáculo, mas depois, a mata se adensou, o que os assustou, mas prosseguiram. Depois de horas de caminhada, o cansaço roubavam as suas forças, mesmo assim, conseguiram chegar ao topo da serra e se deslumbraram com a beleza da vista.

Depois de comerem, vendo já ser tarde, começaram a decida, que não foi fácil como supunham ser, perceberam que aquelas paisagens eram estranhas aos seus olhos, nessa altura, já estavam perdidos. Depois de muita agonia, decidiram que o melhor era subirem numa árvore para passar a noite, procedimento que repetiram no dia seguinte, devido as afamadas onças da região. Depois de dois dias perdidos, avistaram um clarão avermelhado, distante, que logo concluíram ser uma fogueira feita pelo pai para norteá-los. Nessa mesma noite, ouviram barulhos de onça. No dia seguinte encontraram os restos de uma caça deixada por ela, animaram-se para comer a caça do felino, pois havia ainda muita carne ali, mas quando preparavam a carne, ouviram um ruído... “É a onça!”, disse Neco...

Enquanto isso, a tristeza e as rezas compunham o cenário na Fazenda Sant’Ana. Muitos homens se dividiram para procurar as crianças perdidas. Mas, o primeiro dia foi infrutífero. No segundo dia, Zé e Alexandre, dois caçadores experientes, saíram novamente atrás dos meninos. No rastro dos meninos na Serra, acharam pistas da presença de onças, o que os assustou, ouvirem um ruído e se deparam com o felino. Não contaram conversa, mataram o animal, mas, com tristeza profunda, concluíram que a onça havia matado as crianças. Com desgosto caminhavam de volta para a fazenda, mas no meio do caminho, para a surpresa dos dois, encontraram os meninos em cima de uma árvore, que, por sua vez, também saltaram de alegria ao ver Zé e Alexandre. Agora, todos juntos e felizes rumaram de volta para a Fazenda Sant’Ana, onde todos ainda estavam aflitos.

Na Fazenda, o retorno dos dois pequenos foi recebido com muita festa e alegria. S. Domingos e Dona Maria abraçaram os filhos, aliviados. No dia seguinte, Zé Pequeno e Alexandre vieram ao encontro da família, trazendo um presente, era o couro da onça abatida lá na serra, ao passo que Zé disse: “Isso é pra vosmecês meninos, para se alembrar do perigo que correram!”. Em seguida, Alexandre contou: “O povo mudou o nome da Serra, agora todo mundo só chama de ‘Serra dos dois Meninos’”.

Fonte: Aristides Fraga Lima / Adaptação: Bruna Medeiros
Foto: A/D - Arquivo OpenBrasil.org

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