HISTÓRIAS DE ALPENDRE

O Macaco e o Rabo


Uma bela tarde de verão lá nos cafundó do sertão do Seridó estava na beira de uma estrada de barro um macaco e um preá tirando uma prosa. E vinha passando na mesma estrada uma carroça de bois rangendo pelo caminho. O macaco disse para o preá:

— Saí da estrada, senão a carroça passa por cima de você.

Distraído nesta conversa, lembrando aquele ditado popular: "macaco não olha pra o rabo", não reparou o macaco que ele é que corria o maior risco, e veio à carroça e passou em riba do rabo dele e cortou. Estava um gato escondido dentro de uma moita, saltou no pedaço do rabo do macaco e correu com ele. Correu também o macaco atrás, pedindo o seu pedaço de rabo. O gato disse:

— Só te dou, se me deres leite.
— Onde tiro leite? – disse o macaco.
Respondeu o gato:
— Pede à vaca.

O macaco foi à vaca e disse:
— Vaca, dá-me leite para dar ao gato, para o gato dar-me o meu rabo.
— Não dou; só se me deres capim. – disse a vaca.
— Donde tiro capim?
— Pede à velha.

— Velha, dá-me capim, para eu dar à vaca, para a vaca dar-me leite, o leite para o gato me dar o meu rabo.
— Não dou; só se me deres uns sapatos.
— Donde tiro sapatos?
— Pede ao sapateiro.

— Sapateiro, dá-me sapatos, para eu dar à velha, para a velha me dar capim, para eu dar à vaca, para a vaca me dar leite, para eu dar ao gato, para o gato me dar o meu rabo.
— Não dou; só se me deres cerda.
— Donde tiro cerda?
— Pede ao porco.

— Porco, dá-me cerda, para eu dar ao sapateiro, para me dar sapatos, para eu dar à velha, para me dar capim, para eu dar à vaca, para me dar leite, para eu dar ao gato, para me dar o meu rabo.
— Não dou; só se me deres chuva.
— Donde tiro chuva?
— Pede às nuvens.

— Nuvem dê-me chuva, para dar ao porco, para dar-me cerda para o sapateiro, para dar-me sapatos para dar à velha, para me dar capim para dar à vaca, para dar-me leite para dar ao gato, para dar meu rabo…
— Não dou; só se me deres fogo.
— Donde tiro fogo?
— Pede às pedras.

— Pedras dê-me fogo, para as nuvens, para dar a chuva para o porco, para dar cerda para o sapateiro, para dar sapatos para a velha, para dar capim para a vaca, para dar leite para o gato, para ele me dar meu rabo.
— Não dou; só se me deres rios.
— Donde tiro rios?
— Pede às fontes

— Fontes deem-me rios, os rios serem para as pedras, as pedras me darem fogo, o fogo ir para as nuvens, as nuvens me dar chuvas, as chuvas ir para o porco, o porco me dar cerda, a cerda para dar para o sapateiro, o sapateiro fazer os sapatos, os sapatos dar para a velha, a velha me dar capim, o capim é para a vaca, para a vaca me dar o leite, o leite é para o gato, para o gato me dar meu rabo.

Alcançou o macaco todos os seus pedidos. O gato bebeu o leite, entregou o rabo. O macaco não quis mais, porque o rabo estava podre.

Fonte: Fátima Araújo, para OpenBrasil.org
Foto: A/D - Arquivo OpenBrasil.org

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