HISTÓRIAS DE ALPENDRE

Casarão Mal Assombrado


Alguns anos atrás quando eu tinha 16 anos, me mudei para Caicó na região do Seridó, com a minha família, pois meu pai havia sido transferido pela empresa onde trabalhava. Alguns dias depois voltando do colégio um colega de classe me disse que em uma fazenda da região estava precisado de zelador para um casarão de uma família tradicional da cidade.

Então decidi me candidatar à vaga, eles davam transporte “uma moto para eu ir e vir” e pagavam um salário.

Depois de conversar com o fazendeiro ele decidiu me dar uma chance e eu comecei no mesmo dia, meu turno seria das 13 até 21 horas, já que eu estudava pela manhã, somente três vezes por semana. O casarão não morava ninguém, o fazendeiro queria apenas preservar a história da sua família, que era umas das primeiras famílias que desbravaram o Seridó.

No primeiro dia, ouvi muito baralho estranho, mas imaginei que fosse o vento, além de ser um casarão muito antigo achei que fosse normal.

No meu segundo dia coisas estranhas começaram a ficar realmente muito assustadoras.
Eram umas oito da noite, eu estava sozinho no casarão terminando a limpeza. Eu fui até o dispensa para buscar alguns produtos e quando voltei para minha surpresa havia uma mulher vestida de luto ajoelhada em frente de um oratório que ficava na sala e ela estava chorando.

A princípio eu pensei que se tratava de alguém que morava ali por perto e resolveu fazer uma oração, então fui me aproximando para falar com ela. “Boa noite senhora, posso fazer algo.” – disse eu à mulher que continuou com a cabeça baixa e chorando.

Vendo o estado da mulher eu a deixei ficar por ali e quando eu fosse embora eu pediria que ela saísse para que fechasse o casarão.
Continuei limpando e acabei esquecendo a mulher até que escutei passos, quando eu olhei para a direção de onde vinha eu não vi nada e a mulher já não estava lá.

Eu corri para a cozinha do casarão, onde tinha escutado os passos, por que pensei que ela tinha ido pra lá. Quando eu cheguei não tinha ninguém, então voltei ao saguão principal chequei todas as portas da todas estavam trancadas.
“Onde esta meu filho?” – escutei uma voz vinda de um dos cômodos. Eu olhei e não tinha ninguém, só vi um vulto andando e desaparecendo. Com medo, eu saí correndo do casarão e acabei topando com o fazendeiro na porta.

Ele estava muito abatido, perguntei o que era, e ele me falou que sua mãe tinha falecido momentos atrás, que iria viajar para cidade onde ela morava.

Ele entrou no casarão e eu fui atrás para ajudá-lo em alguma coisa. A mulher estava outra vez ajoelhada em frente ao oratório, quando passamos por ela o fazendeiro a ignorou totalmente e ela me olhou tirando o véu negro que cobria seu rosto. O terror tomou conta de mim, a mulher estava pálida e chorava muito. Eu decidi não dizer nada para o fazendeiro com medo que ele pensasse que eu estava fazendo uma brincadeira de mau gosto.

Eu fiquei apavorado, queria sair do casarão, mas não tinha terminado a limpeza e o fazendeiro estava lá. O fazendeiro parou em frente uma velha cômoda e me mostrou, meu sangue gelou novamente, a mulher na foto era a mesma que chorava lá na sala principal.
“Esta era a minha mãe, ela sempre pedia para que eu fosse visitá-la, mas como eu sempre estava ocupado na fazenda e outros negócios da família quase nunca eu ia visita-la. Agora ela faleceu e eu nunca mais vou vê-la.” Disse o fazendeiro com a voz tremula.

O fazendeiro foi para o enterro da mãe, por dois dias trabalhei somente à tarde enquanto tinha sol. Quando o fazendeiro finalmente regressou, eu pedi demissão. O casarão ficou sem zelador, pelo que parece, esse não foi à primeira assombração daquele velho casarão. Ainda morro de medo, vai ver que a mãe dele ainda o está vigiando do além.

Fonte: Eduardo Medeiros, para OpenBrasil.org
Foto: A/D - Arquivo OpenBrasil.org

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