HISTÓRIAS DE ALPENDRE

História de Lobisomem - A Fazenda


Essa história se passou em Caicó - RN, na década de 1940, meus avós haviam se mudado para essa cidade na época em que tudo aqui era mato, muito diferente de hoje.

Meus avós, aqui chegaram com uma família de 08 filhos (tiveram 14 no total) para morar em uma pequena casa, em uma fazenda próxima a Serra da Formiga, enquanto ao lado construíam um casarão para abrigar a grande família.

Aqui na região, havia muita caça e meus avós tinham bons cães que davam conta do recado. Quando uma das cadelas deu cria pela primeira vez, os filhotes da mesma foram aparecendo mortos todos dilacerados. Toda a prole foi morta e meu avô acreditava que por falta de experiência da fêmea, devida a ser primeira vez que ela dava cria, ela acabava matando seus rebentos.

Outra cadela também teve cria e o resultado foi o mesmo, e outra, e outra. Minha falecida avó (Maria de Medeiros) às vezes ficava sem sono e passava as noites em claro costurando, e percebia a briga dos cães com algum animal, porém ela tinha medo de falar com meu avô, vez que ele era um daqueles Nordestinos "cabra macho" que não se amedrontava com qualquer pio da coruja, assim, minha avó sabia que ele iria enfrentar o que quer que fosse que estava matando seus animais, (o nome do meu falecido avô era Malaquias Pereira Araújo, era de Acari, aqui mesmo da região do Seridó Potiguar).

Meus tios e minha mãe eram crianças na época, também ouviam as brigas dos animais, mais a minha avó os proibia de falar o acontecido ao meu avô. Meu saudoso avô tinha o sono pesado, vez que acordava ainda na madrugada para tirar o leite das vacas da fazenda. Eles tinham uma vacaria, lá após ordenhar as vacas ele entregava o leite para uma queijeira na região que ficava mais ou menos uns 18 quilômetros de onde a gente morava, voltando ia colocar água e ração para os animais, ou seja, um dia inteiro de muita luta, muito trabalho, quem mora em fazenda sabe como é.

O velho chegava à casa muito tarde e era aquela mesma rotina, dormir tarde e acordar cedo, daí vinha o sono pesado de meu avô.
Quando mais uma cadela teve filhotes, novamente a série de ataques voltou a acontecer, porém dessa feita, minha avó que ouvia a briga dos animais, armou-se de coragem e relatou o ocorrido a meu avô.

Naquele dia, antes de dormir, pedindo que fosse acordado na hora dos acontecimentos, meu avô guardou uma espingarda debaixo da cama.

Meu avô removeu a cadela e seus filhotes para um pequeno abrigo logo abaixo da janela de seu quarto. A fera estava com suas horas contadas, ela iria conhecer a fúria do braço forte de meu avô.

Naquele dia a "casa" não dormiu, todos ficaram acordados, menos meu avô. Quando o ataque começou foi aquele alvoroço e meu avô acabou acordando e quando foi pegar a espingarda a mesma não estava no local deixado pelo meu avô, pois minha avó havia escondido porque ela tinha medo do que poderia acontecer. Meu avô então lançou mão de uma barra de ferro maciço que era usada como "tranca" da porta, em seguida abriu sua janela e viu embaixo da mesma uma espécie de cachorro preto que sem se preocupar com o ataque da cadela e dos demais cães, investia em cima dos filhotes.

O animal estava tão interessado em pegar os filhotes, que não percebeu o meu avô se aproximar, ele deu um forte golpe seguido de vários outros, que parecia não incomodar o animal, nem ao menos sangrou o tal bicho. Em dado momento o bicho olhou para meu avô, que sempre dizia que foi a coisa mais feia que ele já viu, meio lobo, meio cachorro, meio gente. Então o velho Malaquias começou a golpear com a barra de ferro diretamente na fuça do animal.

O bicho sem emitir qualquer som, fugiu do local arrebentando no peito uma cerca de sete fios de arame farpado.

Meu avô pulou a janela e junto com a "cachorrada" correu atrás do bicho que se perdeu na mata fechada naquela noite.

Na manhã seguinte, um senhor que era caseiro em uma fazenda próxima, foi encontrado em estado lastimável, todo arrebentado, com graves lesões na cabeça, peito todo rasgado, disse ele que ladrões tentaram roubar ferramentas da fazenda e ele sofreu o ataque ao impedi-los (como se fosse comum acontecer isso naquela época).

Quando foram procurar socorro para o moribundo, ele foi carregado em uma carroça de jumento. Dizem que ele lançou um olhar firme em direção à casa de meus avós quando passou em frente a ela. Esse senhor, não resistindo às lesões, veio a falecer. Dizem que ele virava lobisomem. Contam ainda que ele e outros dois irmãos eram filhos muitos ruins, que batiam na mãe por causa de dinheiro.

Falam que de certa vez, a mãe deles havia dito que amaldiçoava o leite que eles haviam tomado dos seios dela.
Um perdeu um braço caindo do cavalo, outro tomou uma surra tão grande da chamada "De fazer chover", que acabou ficando doente mental, dependendo de todo mundo e o outro, ao que tudo indica, sofreu a sina de virar bicho.

Hoje passados mais de 70 anos, várias pessoas da minha família que ainda moram no mesmo local, dizem que de vez enquanto veem por lá o vulto de um grande cachorro preto.

Eu tenho guardado comigo a tal "barra de ferro maciço" que ganhou fama na região. Espero que ele dure mais 70 anos, e mais... e mais... e mais... Para manter viva a época em que as noites no sertão traziam apenas o medo de lobisomens, mulas sem cabeça, sacis e outras criaturas e assombrações. Poxa, como eles eram felizes.

Tal tranca ficou famosa na época e os antigos moradores ainda lembram. Minha família mora até hoje no local do ocorrido.

Fonte: Redação OpenBrasil.org
Foto: A/D - Arquivo OpenBrasil.org

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