HISTÓRIAS DE ALPENDRE

O Vaqueiro Justino do Seridó


Onde anda Seu Justino, vaqueiro famoso do Seridó, grande contador de historias, as de Trancoso, as reais, e as misturadas entre sonho e sono, realidade e lirismo? Emérito dançador de xote, com seu corpo longilíneo e muito magro, nariz à melhor maneira recurva dos judeus, mãos enormes de puxador de gado nas veredas fechadas e olho meio cego, lembrando Lampião de revestrés.

Justino, curador de bicheira no rastro, benzedor com galhos de mastruz, sem saber que a força magnética reside nele, potencialmente primitiva, mais atuante. Ah, velho vaqueiro, que dizias ter preguiça de ficar parado; e eras uma lançadeira perdida nos aceiros do sertão, a catar preocupação com o gado, o algodão e a necessidade de chuva, adivinhavas na voz dos trovões a presença de Deus, e tiravas o chapéu, com a reverência de um sábio.

Seu Justino, pantagruélico comedor de tutano com rapadura e farinha – era sua sustância –, para toda obra de ajuda aos seus semelhantes, vivedores do inextinguível drama de abandono do campo sertanejo? Eterno fiador da aparição de onça, no pátio da fazenda, rastreador de preá, tocaiador de peba e tatu nas noites grávidas da lua; vidente de rastros de bichos perigosos; na escuridão mais densa, quando via a luz estranha na pupila dos bacuraus, persignava-se e exclamava: “Luz dos olhos claros, aluminai meu caminho”. Mais do que um verso, soava como salmo bíblico de exegese nunca definida.

Onde está Justino, presenciador de malassombros nas cercanias do Seridó, e dono do cavalo Tordilo; Justino manco e protonatário, mas capaz de enfrentar, em sua brabeza, o mal, na sua capacidade de aparecer, visível e invisível, aos nossos olhos, com as orações que recitava para afastar o Demo, se possível na base do chicote? Justino, que dizia que o segredo da sua saúde estava em um banho de água dormida, exatamente às quatro da madrugada, em meio à fosforescência da barra quebrando, e à militância lírica de um galo de estimação, ao invadir com seu canto os contrafortes da manhã nascente. Onde o vaqueiro, amigo e bonachão, que curava as feridas do corpo, nelas passando o estrume dos currais, desmoralizando todas as leis da higiene preventiva e inventiva, e matando, dessa maneira, e de modo original, o vírus do tétano?

O Seridó de horizontes trêmulos, ali, que se ouvia o piar da coruja com a volúpia de uma meia-noite de romance; e os tetéus, solitários e agressivos, disparavam, no ar da madrugada, a estridência de seu canto autoritário; e metálico e limpo como cabe ao som sertanejo.

Com Seu Justino, conversava-se sobre coisas muito importantes e inesquecíveis. Como, por exemplo, o ranger dos armadores para a fruição de um sono reparador, nos alpendres das casas de fazenda; a necessidade de uma clarabóia, no telhado de uma casa, para que a réstia de sol, ou o pedaço de luar, completem nossos sonhos impacientemente cansados; para que haja, de vez em quando, telhas vãs e quebradas e, através delas, desça, até nossa rede mortal, os respingos das chuvas, movidas a trovoadas; os chuviscos que curam nossa melancolia e patética espera da felicidade; para que voltem a ser construídos corredores em nossas casas, à maneira da arquitetura portuguesa que nos foi ensinada: empenho de melhorar o que se chama hoje de ecossistema; mas que haja corredores onde se reflitam, em som, os ecos dos nossos passos, dos passos dos que foram nossos pais e nossos irmãos, que estão já do Outro Lado, vendo e ouvindo nossas vozes, que morrem sem mais os longos corredores, por onde reboem nossos hinos e nossas vozes à melhor feição de nossa infância. A risada de Justino abria corredores de ternura.

Enfim, era a conversa singular com um homem repleto de sabedoria, vinda e nascida com o povo, ornada com o vocabulário sertanejo, que nunca expressa o real. De repente, o galo no quintal de Seu Justino trinca o ar quente com seu canto libérrimo. O vaqueiro audaz come um pedaço de rapadura e pega de uma caneca, vai ao pote, e bebe, de uma vez, o conteúdo líquido como se se libertasse de todos os males e dores do mundo.

O Seridó incendiava-se na luz do meio-dia; e agora, mais do que nunca, tremia, no forno em que se transformou a paisagem. Justino bota o chapéu e se perde no campo. Atravessará as serras, baterá estradas, varedas, desviará a tarde, seu chão e seu hectare de sonho o sertão do Seridó. E onde desapareceu para sempre.

Fonte: Sanderson Negreiros
Foto: A/D - Arquivo OpenBrasil.org

Histórias de Alpendre - OpenBrasil.org

Postagens mais visitadas