HISTÓRIAS DE ALPENDRE

O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá


Era uma vez, uma linda e enorme fazenda muito arborizada e habitado por animais de várias espécies. Essa fazenda possuía um belo açude e ao fundo uma linda e alta serra que cortava o horizonte.

Na casa principal da fazenda morava um gato malhado, com listras amarelas e alaranjadas, uma criatura muito egoísta. Na verdade, naquela enorme fazenda nem nos arredores não existia nenhuma criatura mais egoísta e solitária que o gato malhado. Ele não tinha relações de amizade com os seus vizinhos e quase nunca respondia aos raros cumprimentos que por medo, e não por gentileza, alguns transeuntes lhe dirigiam.

Nada alterava o dia a dia da fazenda.

Até que chegou janeiro, finalmente chegou a estação das águas no sertão, começou o inverno, chuva no sertão do Seridó depois de sete anos sem a mesma, chegou com força molhando a terra e com ela chegou as cores alegres, aromas inebriantes e sonoras melodias. A caatinga se vestia de verde, suas flores exalavam um perfume sem igual.

O gato malhado estava dormindo no alpendre daquele enorme casarão sem importar-se com os últimos acontecidos. Lá fora as flores desabrocharam com as mais vividas cores que se possa imaginar, poderosa, tomando conta de todo aquele lugar antes castigado pela mais severa seca que si tinha notícia, mas a sua presença era tão insistente e forte que acordou o gato do seu sono sem sonhos, abriu os seus olhos castanhos e esticou os braços.

Ao ver as cores e beleza da natureza, o gato malhado experimentou um estado de otimismo incomum. “Ele se sentia leve, queria falar sem compromisso, andar sem rumo e até mesmo conversar com alguém. Olhou em volta com seus olhos castanhos, mas não viu ninguém. Todos tinham fugido, tinham muito medo dele, jamais ousariam chegar perto daquele alpendre”.

No entanto, no galho de uma jurema próxima ao casarão, a andorinha Sinhá piava e sorria para o gato malhado. Enquanto isso, dentro dos seus esconderijos, todos os pássaros que habitavam as matas da fazenda olhavam espantados para a andorinha Sinhá.

A andorinha Sinhá muito risonha e linda, não havia nenhum pássaro em idade de casar que não suspirasse por ela. Era muito jovem ainda, mas onde quer que estivesse, todos os pássaros da fazenda admiravam.

Ela era simpática com todos, mas não amava ninguém. Voava despreocupadamente de árvore em árvore pela fazenda; era curiosa, gostava de conversar e era inocente de coração. Na verdade, não existia em nenhuma fazenda da redondeza uma andorinha tão bela e gentil como a andorinha Sinhá”.
A andorinha conversou com o gato malhado e chegou até a insultá-lo, um fato que os demais habitantes da fazenda viram como uma sentença de morte para o pássaro. Seus pais a haviam proibido de se relacionar com os gatos, pois eles eram os predadores naturais dos pássaros.
Mas ela ignorou o conselho e conversou com ele mesmo assim.

Naquela noite, a andorinha “deitou suavemente a cabeça na pétala de rosa que lhe servia de travesseiro e decidiu continuar a sua conversa com o gato no outro dia: – Ele é lindo e simpático… – murmurou ao adormecer.

Quanto ao gato malhado, ele também pensava na arisca andorinha Sinhá. No chão da sala do casarão da fazenda o gato descansou a cabeça sobre os braços e dormiu.

No outro dia, o gato acordou muito cansado e achou que estava doente, percebeu que tinha febre e foi buscar água fresca num açude próximo ao casarão para se refrescar do ardor que sentia por dentro. E ali, nas águas do açude, ele viu o reflexo da andorinha Sinhá que o observava.
Foi para casa sem falar nada, passou o dia meio agoniado, a noite depois do jantar, deitou no alpendre, as estrelas eram sua única companhia, as lembranças em uma noite silenciosa não deixava o sono chegar, quando conseguiu dormir, sonhou com a andorinha e era a primeira vez que sonhava na vida toda, viu a bela andorinha em cada folha, em cada gota de orvalho, em cada raio de sol do crepúsculo e em cada sombra da noite.

O gato malhado não percebeu que havia se apaixonado; não conseguiu reconhecer os seus sentimentos. Na verdade, ele tinha machucado muitos corações apaixonados, mas nunca deu muita importância a esses sentimentos. Quando acordou, se lembrou que tinha sonhado durante toda a noite com a andorinha, mas decidiu não se preocupar com isso.

Após o café da manhã, ele seguiu a andorinha Sinhá para conversar, mas não falou sobre o sonho nem o que sentia em seu coração.
Nos dias seguintes, continuaram a passear juntos pela fazenda; ele caminhava e ela o acompanhava voando ao seu lado. Vagavam sem rumo e comentavam sobre as cores das flores, as nuvens do céu e as belezas do mundo.

O gato malhado passou por uma transformação. Já não ameaçava os outros seres vivos, não despedaçava as flores com suas patadas, não eriçava os pelos quando um estranho se aproximava, não repelia os cães eriçando os bigodes, os insultando entre dentes. Ele se tornou um ser suave e gentil, era o primeiro a cumprimentar os habitantes da fazenda, ele que antigamente não respondia aos cumprimentos que lhes dirigiam. Começou a falar até com os animais que ele considerava animais inferiores, como os carneiros, porcos, galinhas e vacas.

Numa bela noite de luar no sertão, a andorinha e o gato jantaram juntos. Enquanto conversavam, o gato não se conteve e lhe disse que se não fosse um gato, a pediria em casamento. Sem responder nada, na mesma hora, a andorinha bateu asas e voou para longe. O gato não entendeu nada.
No dia seguinte, a andorinha não apareceu para as caminhadas na fazenda. O gato tentava entender o que estava acontecendo com ele e se debatia com sentimentos contraditórios. Envolto em tristeza e solidão, decidiu conversar com a coruja.

No início, conversaram sobre vários assuntos sem importância. Mas a coruja era sábia e percebeu o que estava acontecendo. Sem esperar que ele perguntasse, ela lhe contou sobre os rumores que haviam na fazenda sobre os seus encontros com a andorinha.
Todos pensavam mal dele e isso o enfureceu. No final, a velha coruja deu a sua opinião: “Velho amigo, não há nada a fazer. Como você pôde imaginar que a andorinha o aceitaria como marido? Nunca houve um caso assim, mesmo que ela o amasse, a família dela nunca aceitaria tal união”.
Dias passaram, então o gato malhado procurou novamente a andorinha. Ela estava séria e distante, já não sorria mais e não demonstrava a mesma simpatia de outros tempos. O gato não conseguia esconder que estava muito triste.

No seu coração ressoavam as palavras da coruja e só conseguia passear com a andorinha em silêncio.

Nessa tarde, o gato malhado voltou a ser o vilão de sempre. Ele perseguiu o bezerro, assustou os porcos, arranhou o focinho de um cão e roubou e jogou fora os ovos do galinheiro. Todos os habitantes da fazenda espalharam a notícia e voltaram a temer o gato que parecia a encarnação da maldade.

Depois de alguns dias, o gato recebeu uma carta da Andorinha Sinhá, graças a um pombo correio. Nele, ela dizia que uma andorinha nunca poderia se casar com um gato e que não deviam voltar a se ver.

No entanto, também acrescentou que nunca havia sido tão feliz como durante os passeios pela fazenda com ele, queria que esses dias nunca tivessem acabado. Terminou a carta com uma declaração que lhe queimou o coração: “Sempre sua, Sinhá”. O gato malhado leu essa carta várias vezes até guardar tudo na memória.

Algum tempo depois, a andorinha apareceu sem aviso prévio. Ela estava tão linda e terna, como antes. Agia como se nada tivesse acontecido, como se a distância que os separava tivesse se diluído. O gato estava comovido e feliz, ficaram juntos o dia inteiro até que a noite chegou, mas no final ele soube da verdade, e então ela meia sem jeito lhe disse que seria a última vez que ele a veria, porque iria se casar com um rouxinol. “Por quê? Porque uma andorinha não pode se casar com um gato”. O gato malhado ficou arrasado com a notícia.

Dias passaram, durante o casamento, ele não conseguiu aguentar e foi à festa. A andorinha, que conhecia o som dos seus passos, sabia que ele estava lá, deixou que uma das suas lágrimas fossem levadas pelo vento e caíssem nas mãos do gato.

Isto iluminou o caminho solitário do gato malhado na noite sem estrelas. O gato tomou a direção dos caminhos estreitos que conduzem para a encruzilhada do fim do mundo, e de tristeza chorou.

Definitivamente, uma bela história que nos lembra da eterna tristeza dos amores impossíveis.

Moral da história
(1) O amor não tem fronteiras, o preconceito sim.
(2) O amor nos torna pessoas melhores.
(3) O mundo só vai avançar e ser melhor quando as pessoas aceitarem as suas diferenças, sejam elas raciais, sociais ou educativas.

Fonte: Jorge Amado, versão por OpenBrasil.org
Foto: Versão da capa do livro Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, por OpenBrasil.org

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