HISTÓRIAS DE ALPENDRE

Os Encontros dos Desencontros



A história que vou lhes contar, é sobre minha vida, e como às vezes, os grandes encontros são feitos dos desencontros.

Há muito tempo atrás, num pequeno apartamento na capital, morava um poeta muito jovem chamado Augusto Lemos. Augusto se preocupava tanto em ficar sem ideias, que geralmente não conseguia pensar em nada para escrever.

Por isso procurou seu avô, um senhor muito sábio que sempre tinha resposta para quase tudo.

- “Meu avô, estou sem ideias para novos poemas, novas histórias. ” Afirmou Augusto.
-“Por que você não tira umas férias, respire novos ares, esfrie a cabeça, as ideias nasceram novamente. ” Falou seu avô.
- “Não quero tirar férias próximo a capital, preciso de algo diferente. ”
- “Porque você não vai conhecer o sertão do Seridó, não é tão distante, mas tem um cotidiano totalmente diferenciado do nosso, novas cores, aromas, sabores, pessoas, costumes e paisagens. “ Diz seu avô aconselhando-o.
- “Obrigado vô, vou pensar. “
- “Pense com carinho meu neto! “

Augusto começou a pesquisar a possibilidade de passar férias na região do Seridó. Saber mais sobre este lugar, na biblioteca encontrou vários livros falando da região, tinha livros de paisagens, culinária, poesias e romances.

Um livro em especial chamou muito sua atenção, um romance da escritora seridoense Laura Dantas, livro chamado “A Cor do Amor”, aclamado e premiado por todo país.

Levou o romance para seu apartamento e o começou a ler sem parar.

O romance “A Cor do Amor” conta a história de Maria, que está noiva de José, mas não resiste aos encantos do garboso, João, no qual se apaixona perdidamente. Logo, ela termina o noivado com José, se casando com João, contra a vontade do pai, ela se arrepende desta decisão fatal pelo resto de sua vida, deixar uma homem correto e trabalhador como José, por um fanfarrão, preguiçoso e metido a namorador como João.

A paixão inflama o coração, cega os olhos e tapa os ouvidos, em inúmeras vezes que seu pai tentou alertar quem era realmente João, sem sucesso. Agora, paga alto o preço pela sua cegueira e surdez.

Maria nunca se perdoa, não importa quantas vezes caminhe descalça, com os filhos nos braços em peregrinação até o Monte das Graças.

Esse romance comoveu tão profundamente Augusto, que ele escreveu uma carta para a escritora Laura Dantas.

“Prezada senhorita Laura Dantas,
Eu sou um poeta natalense.
Eu poderia ir visitá-la na sua fazenda para conversarmos e me inspirar.
Cordialmente Augusto Lemos. “


Assim que recebe a carta, ela responde:

“Prezado senhor Augusto,
Eu também estou precisando de um pouco de inspiração hoje em dia.
Por favor venha me visitar quando desejar, será muito bem-vindo em minha fazenda.
Cordialmente Laura Dantas. “


Augusto nem acreditou quando recebeu a resposta da carta, ele havia se tornado grande fã do trabalho de Laura.

E foi assim que Augusto foi passar as férias na região do Seridó, como seu avô havia lhe aconselhado.

Como a escritora Laura Dantas morava em uma fazenda bem distante da rodovia, não havia transporte até lá, Augusto desceu do ônibus e seguiu caminhando por uma estrada carroçável, de barro mesmo, em busca da fazenda da senhora Laura. Por ironia do destino, como estava bem no início da estação chuvosa no sertão, o céu ficou escuro como uma noite, começou uma chuva fria e fininha, que logo se transformou em uma chuva forte, a estrada se transformou em um verdadeiro lamaçal sem fim, era impossível caminhar pela aquela estrada, Augusto perdeu logo os sapatos atolados na lama, relâmpagos cortavam o céu, trovões ensurdecedores ecoavam cada vez mais fortes. Augusto viu uma casa branca de janelas azuis arrodeada de alpendre com a luz acesa, então decidiu pedir abrigo.

Bateu palmas, logo saiu um senhor, e disse:

- “Entre meu filho, sai desta chuva logo. “
Augusto adentrou no alpendre da velha fazenda.
O senhor perguntou:
- “Perdido? Nunca tinha visto o senhor por estas paragens. “
Augusto respondeu:
- “Sou grande fã da escritora Laura Dantas, e estou a caminho da fazenda dela para visitá-la. “
- “Mas que coincidência, ela é parente da minha família, o cunhado do meu primo era tio avô do marido da sobrinha da mãe de Laura Dantas. ”

O senhor ofereceu comida e abrigo a Augusto, até que a chuva parasse e a estrada possibilitasse trafegar sem atolar. Mas naquele ano em especial, a chuva não dava trégua, chovia todos os dias, e a estrada continuava um atoleiro só.

- “Nunca na minha vida, eu presenciei um ano para chover tanto aqui no sertão, mas não se preocupe, fique o tempo que quiser. Disse o senhor a Augusto, mostrando-lhe a velha e conhecida hospitalidade seridoense. “

Augusto não se importou nem um pouco em permanecer ali, pois o senhor tinha uma filha linda chamada Isabela, que de dia cuidava das galinhas e patos e a noite admirava as estrelas e vaga-lumes fazendo verdadeiras constelações nas matas ao redor da casa, nas noites sem luar.

Se falavam só com olhares, nos quais brilhavam feito estrelas quando se cruzavam.

Um romance estava em plena floração, e Augusto sem aguentar mais aquela situação, resolveu escrever um verso para se declarar a sua amada Isabela.

“Queria ter coragem
Para falar deste segredo
Que guardo dentro do peito
Guardado a sete chaves em meu coração
Tomou conta de minha alma
Queria poder falar bem alto para o mundo inteiro ouvir
Cantar aos quatros ventos
O amor que tenho por ti
Isabela você é minha inspiração
Isabela você é a dona do meu coração
Isabela você mudou minha vida
Isabela seja minha esposa querida. “


Dobrou o papel e colocou por debaixo da porta do quarto dela, na hora em que todos estavam dormindo na casa.

No outro dia, ela entrega um bilhete rapidamente na mão dele e sai correndo, que dizia:

“Eu também me sinto assim,
Desde que lhe vi pela primeira vez, me sinto como um anjo a flutuar
Minha vontade era te amar, e ser sua esposa para sempre.
Mas infelizmente estou prometida a Antônio, filho de um fazendeiro que também é o melhor amigo do meu pai. Um membro muito respeitado por todos.
O casamento está marcado para junho deste ano. “


Augusto leu aquele bilhete como se tivesse recebido um golpe no estômago. Inconformado ele escreveu outro bilhete marcando um encontro debaixo do pé de mangueira ao lado da casa à noite, quando todos estivessem dormindo. E o entregou quando Isabela estava alimentado as galinhas.

Na hora marcada Isabela chegou, e Augusto foi logo tentando dissuadi-la:

- “Nossa história é exatamente como a história do livro “A Cor do Amor”, Maria, que está noiva de José, mas se apaixonou por João. Ela termina o noivado com José, se casando com João apesar do pai dela ser totalmente contra. “
- “Não exatamente. “ Falou Isabela, com uma voz embargada. Pois Isabela também havia lido “A Cor do Amor”, e sabia que si desobedecesse seu pai, teria uma vida assombrada pela culpa e arrependimento.

Augusto mesmo assim a beijou, tudo ficou ainda mais doloroso para os dois, era a confirmação do amor mais puro e sublime que se possa imaginar.

Naquela mesma noite, nenhum dos dois conseguiram dormir, os pensamentos voaram longe, ele sentia perder sua maior inspiração, seu amor, e ela como um anjo que perdeu as asas e fora aprisionada em um casamento sem amor, quando o sono veio o dia nasceu.

Augusto arrumou suas coisas, agradeceu o senhor pela estadia, e partiu pela estrada enlameada sem olhar para trás, as lágrimas rolavam pelo seu rosto.

Isabela olhava pela janela do seu quarto chorando, sentindo que parte de si fora embora para sempre.

Augusto esqueceu toda a intensão de visitar Laura Dantas, e voltou para capital de coração partido.

Augusto de volta à casa do seu avô, indaga:

- “Como posso escrever, se me sinto tão triste? “
- “Alguns poetas e escritores acham que é o melhor momento. “ Argumenta o avô.
Augusto tentou escrever, mas ninguém se importou com sua poesia triste.

Ele releu “A Cor do Amor” várias e várias vezes, como se a cura para seu coração partido pudesse se encontrar em algum lugar entre aquelas 1.230 páginas.

Isabela sofria com a aproximação do casório, resolveu falar com seu pai, e disse a ele que não amava Antônio, e que jamais seria feliz.

- “Besteira, com passar do tempo você vai se acostumar, começar a gostar dele. “ Retrucou seu pai.

Isabela faz uma promessa a Nossa Senhora Sant’Anna que enquanto não estiver junto do seu amado Augusto, não cortaria seu cabelo.
Faltando um dia para o casamento, como última alternativa, e por ela considerada a mais difícil, resolveu procurar o noivo, Antônio para conversar, sem rodeios foi direto ao assunto.

-“ Nosso casamento é amanhã, mas se eu disser que te amo, que quero me casar com você, passar o resto das nossas vidas juntas, estarei mentido. “
Antônio arregalou os olhos, fez um breve silêncio e deu uma resposta que à surpreendeu:
-“ Eu também não te amo, eu tenho todo respeito por você e sua família, mas na verdade eu amo outra moça, o nome dela é Ana. Não me entenda mal, você é linda, mas nessas coisas de coração não tem explicação. Meu pai não quer aceitar, mas nunca vou deixar de amar minha querida e amada Ana. “
- “E então, o que fazemos? “ Indagou Isabela.
- “Eu ia me casar com você, somente por um sentimento de respeito, fazendo a vontade de meu pai, mas agora depois que abrimos nossos corações, tudo mudou. Amanhã pode se atrasar para o casamento o quanto você quiser, pois eu vou fugir com a minha amada logo cedo. “ Falou Antônio.

Claro, que assim que amanheceu, o noivo já tinha fugido, como não encontraram o mesmo, cancelaram tudo.

Isabela ficou radiante de se livrar da prisão de casamento sem amor, ficou claro para ambos que seriam muito infelizes.

Logo, tratou de escrever uma carta para seu amado, Augusto avisando que ela estava livre para se casar com ele.

Um carteiro que sempre passava de bicicleta pelas fazendas deixando e pegando as correspondências levou a carta de Isabela para postar nos correios, mas o destino quis pregar mais uma de suas peças, como a estrada estava muito esburacada por conta do último período chuvoso, ao passar por um destes buracos a carta de Isabela caiu no chão sem que o carteiro percebesse, ficou lá chão esquecida para nunca chegar ao seu destinatário, para sepultar de vez as chances de alguém encontrar a carta e entrega-la a remetente, uma cabra que pastava pelo local encontrou a carta e a comeu.

Augusto nunca recebeu a carta, e Isabela esperou em vão a resposta, e o tempo foi passando enquanto isso os cabelos de Isabela continuavam crescendo, crescendo e crescendo.

Isabela então decidiu contratar algumas meninas da vizinhança para pentear e desembaraçar seus belos e longos cabelos, uma delas era uma garotinha que tinha muito talento para fazer os mais diversos penteados, fazendo tranças e nós complicados. Seu nome era Sofia, e ela se tornou a cabeleireira favorita de Isabela, e assim, se tornaram melhores amigas.

A vida de Isabela passou sem eventos especiais durante muitos anos. Até que um dia a escritora Laura Dantas faleceu.

- “Você precisa ir ao funeral. “ Disse Sofia
- “Por que? Ela era uma parente muito distante. “ Alegou Isabela.
- “Quando um parente morre, não importa se ele é de grau familiar distante ou não. “ Afirmou Sofia.

Em Natal, Augusto ficou deprimido com a morte da sua autora preferida.

- “Você precisa ir ao funeral. “ Disse o avô de Augusto.
- “Mas é lá no Seridó. “
- “Vá logo. “ Retrucou o avô.

Augusto não gostava de celebrar a morte, mas foi no velório mesmo assim. Mesmo com muito medo das lembranças passadas.

Ao chegar no velório, ele ficou muito feliz, pois finalmente reencontrou sua amada Isabela.

Naquela multidão de corações e pensamentos de tristeza e pesar pela perda de Laura Dantas, dois corações si enchiam e transbordavam de alegria.

- “Meu amor, que bom lhe reencontrar, agora vou poder cortar meus cabelos. “ Disse Isabela.
- “Porque meu amor? Eu adoro seus cabelos. “ Responde Augusto.

Na semana seguinte, Augusto e Isabela se casaram na capelinha da fazenda, com a benção do pai de Isabela, que pela primeira vez em anos enxergava um belo sorriso no rosto de sua filha. Todos os amigos e parentes próximos estavam presentes para celebrar o grande encontro de duas almas gêmeas. Inclusive Antônio com sua amada Ana, que já estavam casados há anos e já tinham um casal de filhos.

Após o casamento, Augusto e Isabela resolveram ficar morando na fazenda mesmo, além de Isabela ser sua musa inspiradora, o lugar era maravilhoso e calmo, aonde Augusto se sentia plenamente feliz pela primeira vez na vida.

Augusto logo se tornou a prova viva que alguns poetas vivem melhor felizes do que tristes. Ele publicou uma coleção de poesias chamada “Alegria e felicidade”, que foi traduzida em mais de 20 línguas ao redor do mundo. E se tornou um best-seller.

Isabela estava muito feliz também, mas já estava preocupada com o tamanho de seus cabelos.

Quando um belo dia Augusto, tropeçou nos seus cabelos soltos e ao cair quebrou o polegar da mão direita, ela viu ali uma ótima oportunidade, ligou para sua melhor amiga e cabeleireira favorita Sofia, a única que Isabela confiaria suas belas madeixas. Sofia que agora já não era mais uma menina, e sim uma moça, morava na capital para onde fazia faculdade, faculdade esta paga por Isabela no qual fazia todo gosto.

Sofia ao atender o telefonema de sua amiga, não perdeu tempo, pegou o primeiro ônibus para o Seridó. O único assento livre ao entrar no ônibus era ao lado de um rapaz que lia “Alegria e felicidade”, de Augusto. O nome dele era Marcos, e ele disse a Sofia que estava indo ao Seridó para procurar inspiração, e para conhecer Augusto Lemos, que era seu poeta favorito.

- “Mas que grande coincidência, eu também vou para lá. “ Disse Sofia.

O que todo mundo diz, é que Sofia fez um belo corte de cabelo em Isabela, que a visita de Marcos a fazenda de Augusto e Isabela foi muito inspiradora, que o polegar de Augusto ficou bem curado, e por último, mas não menos importante, que Marcos e Sofia se apaixonaram um pelo outro. Algum tempo depois, eles se tornaram meus pais.

Eu costumava achar que todos nós fossemos pedacinhos no espaço sideral.

Que antes de nascermos era só sementinhas flutuando pela imensidão do universo esperando que alguém viesse nos pegar.

Pequenos pontos de luz, como vaga-lumes voando nas matas na escuridão da noite sem luar do sertão.

Antes pensava que o processo de seleção era aleatório, e que não havia uma explicação lógica quem seria nossos pais.

De certa forma eu tinha razão, pois nossa chance de nascer depende do encontro de nossos pais.

Mas se não fosse pelo poeta natalense, em busca de inspiração,
Um conselho de um sábio avô,
O livro “A Cor do Amor”, de Laura Dantas,
Uma estação chuvosa sem igual na história do sertão,
Um par de sapatos atolados num lamaçal sem fim,
Uma fazenda para pedir abrigo,
Um noivo em fuga,
Uma promessa de não cortar os cabelos,
Um carteiro desatento,
Uma cabra faminta,
Habilidade de fazer tranças e penteados nos cabelos,
Um reencontro num velório,
O livro “Alegria e felicidade”, de Augusto Lemos,
Um polegar quebrado,
E um ônibus lotado,

Ufa, meus pais jamais teriam se conhecido, e quem sabe, eu ainda seria uma sementinha, um ponto de luz, flutuando na imensidão do universo, esperando que alguém viesse me buscar.

Fonte: Inspirado no curta-metragem de animação de 2006, escrito, dirigido e animado por Torill Kove, chamado “O Poeta Dinamarquês”. Versão por OpenBrasil.org
Foto: Marconi Cruz de Souza

Histórias de Alpendre - OpenBrasil.org

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