HISTÓRIAS DE ALPENDRE

A Botija Trocada



Há muito tempo atrás, um jovem chamado José Emanuel de Araújo, mais conhecido como Zé Araújo, trabalhava de vaqueiro numa velha fazenda do sertão do Seridó.

A fazenda era linda, ficava num sopé da serra, tinha uma pequena estrada de terra com pedras brancas que margeavam a estrada, tanto de lado como no outro, que levava até a casa grande, ao lado um belo açude, e por trás da parede do mesmo, todo tipo de fruta que se possa imaginar no sertão.

Todos os tipos de pássaros viviam a cantar neste lugar, uma verdadeira melodia aos ouvidos. Ao fundo, longe da casa grande, um velho armazém, onde era usado para guardar ferramentas, sementes e também era morada improvisada de Zé Araújo.

Bem na verdade, os únicos bens que ele tinha na vida era uma velha rede para dormir, duas panelas velhas onde cozinhava para si, saúde e disposição para trabalhar duro.

Seu sonho era casar-se com a moça mais linda daquele lugar, cujo o pai era o dono da fazenda em que ele trabalhava há anos.

Este amor feito somente de pequenos olhares rápidos, se tornou constante, cada dia mais, Zé Araújo desejava aquele amor.

Um belo dia, se revestiu de coragem, e foi falar com velho fazendeiro na casa grande, que de pronto, negou a mão de sua filha, desprezou o pobre rapaz por ser um simples vaqueiro, para sua linda filha só queria um doutor ou fazendeiro.

- “E se dê por satisfeito, por não enxotar você daqui como um cachorro sem dono, volte ao seu trabalho, moleque insolente. “ Bravejou o velho fazendeiro.

- “No dia que você se tornar fazendeiro ou doutor, eu concedo a mão da minha filha e ainda banco a maior festa que esse sertão já viu, eu dou minha palavra, agora sabe quando você vai ser doutor ou fazendeiro? Nunca! “ Completou o fazendeiro.

O pobre Zé Araújo ficou arrasado com as palavras do fazendeiro, tão grande era sua tristeza, que se sentia num fundo de um poço profundo com lama até o pescoço, sem perspectiva alguma de sair daquela situação.

Deitado em sua rede no velho armazém, pensando na vida, na negativa de felicidade do velho fazendeiro.

Aquela fazenda se tornou mais triste após a morte da mulher do fazendeiro, era uma senhora gentil e doce, jamais deixaria o velho fazendeiro destratar alguém.

Depois de muito tempo, dormiu.

- “Novamente! “ Exclamou Zé Araújo, acordando assustado.

O problema que Zé sempre tinha um sonho recorrente com a falecida mulher do velho fazendeiro, sempre aparecia em seus sonhos dando-lhe uma botija cheia de ouro. O problema era que, a tal botija não estava na fazenda e sim, num lugar onde ele jamais esteve, num velho comércio de tecidos no bairro do Alecrim, em Natal.

-“ Mesmo que fosse verdade, como chegar lá? “ Perguntou Zé Araújo para si mesmo.

Mas depois do pedido malsucedido ao velho fazendeiro, o sonho se tornou rotineiro, que raro era a noite em que ele não sonhava com a tal botija.
Depois de muito pensar, vendo que talvez seria a única chance que teria para viver aquele amor, novamente, se revestiu de coragem, juntou um pouco que tinha de dinheiro e partiu busca do tesouro perdido.

Chegando na capital, mais precisamente no bairro da ribeira, onde se localizava a antiga rodoviária, saiu perguntando, andando pedindo informação, até chegar ao bairro do alecrim, onde foi relativamente fácil, para quem está tão acostumado a andar a pé por longas distâncias. Se hospedou numa pousada muito simples, mas a melhor que seu dinheiro podia pagar.

No dia seguinte saiu pelas ruas do bairro até entrar em uma rua que era muito familiar aos seus olhos, mas nunca tivera naquele lugar.
- “Então é verdade, pode sim ter um tesouro escondido aqui.”

Chegou em frente a uma antiga loja de tecidos, e disse para si mesmo:
- “É esse o lugar que aparece em meus sonhos. “
Entrou observou, e identificou o local exato onde no sonho estaria a botija, o tesouro enterrado, no meio daquela antiguíssima loja, no chão, tinha um piso muito antigo com um símbolo da “rosa dos ventos” em vermelho, com fundo branco, com dimensões de mais ou menos dois metros de largura e comprimento. Ele estava lá olhando aquela figura e lembrando como era igualzinho que a falecida do velho fazendeiro mostrava em seu sonho.
- “O senhor deseja algo. Fala o dono da loja de tecidos. “
- “Não, não, obrigado, desejo nada não! “ Tomado de susto exclamou, Zé Araújo, saindo da loja rapidamente.
Eu tenho um grande problema, como vou chegar e cavar um buraco no meio da loja deste senhor, pensou Zé Araújo.
Nos dois dias seguintes, Zé Araújo rondou em frente à loja a observar, e descobriu que o senhor morava na parte de cima do comércio, tornando ainda mais difícil a empreitada.

No terceiro dia, ele já pensava em desistir, ir embora, si dá por vencido, seria impossível abrir um buraco no meio de uma loja sem que ninguém percebesse, o dono morava no 1º andar do prédio, com certeza ele iria escutar uma movimentação no térreo do prédio a noite.
De cansado adormeceu, e sonhou novamente com a falecida, ela implorava para que ele não desistisse, pois ele estava tão perto de realizar seu sonho.

De manhã, acordou decidido, foi novamente em frente, se posicionou do outro lado da rua a observar o movimento e pensar em uma solução para aquele nó cego que se encontrava, pois, seu dinheiro estava acabando e não teria mais tempo para ficar por ali.

Quando inesperadamente, três homens forte, pegaram pelo braço, e disseram:
- “Vamos ali conversar um pouco. “
- “Pelo amor de Deus, conversar com quem? “ Indagou Zé Araújo com voz trêmula aos homens.
- “Conversar com o delegado, vamos colocar essas pulseiras bonitas aqui. “ Responderam os homens já colocando as algemas.
Ao chegar na delegacia, Zé Araújo, percebeu que os homens na verdade eram policias apaisana.
Está aqui o acusado, realmente ele estava em frente à loja de Sr. Heitor, observando a cena.
- “Não... “ Falou Zé Araújo, quando foi interrompido abruptamente.
- “Cale a boca, eu faço as perguntas aqui. “ Bravejou o Delegado.
- “Quer dizer que o senhor pretendia roubar a loja do Sr. Heitor? “ Indagou o delegado.
- “Não delegado. “ Respondeu Zé.
- “Para você é senhor delegado. O senhor foi visto rondando a loja de tecidos do Sr. Heitor vários dias, o próprio Sr. Heitor me ligou, ele tinha observado um sujeito estranho rondando a loja. Armamos uma tocaia e você caiu meu caro! “ Exclamou em voz alto o delegado.
Zé Araújo, só abaixou a cabeça, sabia que não teria escapatória.
-“ Jogue no xadrez esse meliante já. “ Bravejou o Delegado.
Passados dois dias, nada foi encontrado no histórico de Zé Araújo, mesmo assim o delegado decidiu fazer uma acareação entre Sr. Heitor e Zé Araújo.
- “Você conhece o Sr. Heitor? “ Indaga o delegado.
- “Não. “ Retruca sutilmente Zé.
- “Você pretendia roubar a loja de tecidos do Sr. Heitor? “ Pergunta o delegado.
- “Não senhor, jamais, sou um homem trabalhador. “ Afirma Zé.
- “O que o senhor pretendia, passar o dia a observar minha loja e não teria consequência alguma? “ Interpela o Sr. Heitor.
-“ Vou dizer toda a verdade, há muito tempo que tenho um sonho, quase toda noite sonho que numa loja de tecidos grande aqui na capital, no chão no meio da loja tem um símbolo com umas pontas feito estrela da cor vermelha e fundo branco de um piso muito antigo, cavando ali, terá um tesouro, uma botija. “ Contou Zé Araújo.

O delegado e o Sr. Heitor caíram na gargalhada.

Então Sr. Heitor em tom comédia fala do seu próprio sonho.

- “Meu filho, eu também tenho um sonho, que em uma bela fazenda, num sopé da serra linda, tem uma pequena estrada de terra com pedras brancas que margeavam a estrada, tanto de lado como no outro, que levava até a um casarão grande, portas e janelas azuis celeste, ao lado um belo açude de águas límpidas, e por trás da parede do mesmo, várias árvores frutíferas, todo tipo de fruta que se possa imaginar do sertão lá existia, todos os tipos de pássaros viviam a cantar neste lugar, uma verdadeira orquestra. Mas distante, um velho armazém, na entrada dele, uma grande pedra como batente de entrada, e lá debaixo, cavando fundo tem um baú velho de madeira, cheio de ouro puro, e as mais lindas joias que se possa imaginar. Agora imagina eu sair do meu trabalho, procurando alguma coisa assim. Sonhos são coisas abstratas, não significam nada, e coisa que nossa cabeça cria. Não são feitos para ser acreditadas. Sr. Delegado, pode soltar esse pobre coitado.“

Os olhos de Zé Araújo se encheram de lágrimas com o sonho de Sr. Heitor, esse lugar ele conhecia muito bem.

E assim foi feito, antes de ir, o delegado diz:
- “Rapaz, volte de onde você veio, nunca mais quero ver sua cara aqui novamente.”

Zé Araújo não se aguentava de ansiedade para chegar no velho armazém, onde morava.

Chegando, esperou a noite cair, como diz a lenda, quando o relógio marcou meia-noite, Zé Araújo com coragem e fé, desafiando os perigos do além, desenterra o tesouro, libertando a alma da mãe de sua amada. Seu tão sonhado tesouro, um baú velho cheio de ouro e joias, a botija que por linhas tortas finalmente estava em suas mãos.

Primeira coisa que Zé fez foi mandar realizar uma missa em agradecimento para falecida, que agora descansava em paz. A segunda coisa que fez foi comprar a fazenda ao lado de onde ele trabalhava, que era a maior e a mais bonita. A terceira coisa, claro, foi pedir a mão de sua amada em casamento ao velho fazendeiro que não teve como negar, afinal, ele tinha dado sua palavra.

- “Me diga, você viajou para capital por alguns dias, e voltou rico meu nobre rapaz? “ Indaga o velho fazendeiro.
- “Herança de uma pessoa doce e gentil, que gostava muito de mim.“ Responde Zé Araújo em voz baixa, com ar de riso.

É claro que a moça aceitou se casar com o rapaz a qual ela amava em segredo, foi a maior festa que o sertão já viu, e foram felizes para sempre.

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› BOTIJA - COMO TIRAR

Fonte: Baseado no livro "A Botija" da escritora Clotilde Tavares, versão e adaptação por OpenBrasil.org
Foto: OpenBrasil.org

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