HISTÓRIAS DE ALPENDRE

Zé Bolacha - O Mentiroso



A história que vou lhe contar hoje, e sobre um típico, e compulsivo mentiroso, meu amigo Zé Bolacha, o maior mentiroso que o Seridó já ouviu falar.

Ele conta tanta mentira, mas tanta mentira, que meu pai, meus 3 irmãos e eu fizemos uma combinação, toda vez que ele fosse falar uma das suas, alguém interromperia Zé Bolacha com outra conversa, outro assunto diferente.

Passou o tempo e a combinação vinha dando certo, ele gostava de ir lá no sítio a noite, e quando todos estavam papeando no alpendre, quando ele ia contar uma, alguém interrompia a conversa com outro assunto bem diferente.

Mas agente notou que o pobre estava meio mocorongo, meio cabisbaixo, triste mesmo.

A gente foi se compadecendo do pobre, certa noite, ele chegou, deu boa noite, sentou no cantinho do alpendre, e ficou calado. Vendo a situação, fiz sinal para meu pai e meus irmãos e tive a infeliz ideia de perguntar:

- Fala Zé da Bolacha, conta as novas?

- “Homi”, ida bem que “ocê” perguntou rapaz, “tava” me coçando todo para contar o que aconteceu com eu.

- “Tava” eu lá no meu sítio, “tava” com toda lida resolvida, bichos com comida e água, "tava" tudo resolvido, daí pensei, vou tirar um cochilo debaixo de pé de manga, “lugazim” “ventiloso”. Rapaz, me escorei no tronco da mangueira, botei o chapéu cobrindo meus “oi” para ficar “escurim” tava um “sonin” bom. Rapaz, "homi", quando de repente, algo laçou meu pé, e me suspendeu até o topo da mangueira. Falando Zé Bolacha num tom bem matuto.

- Era o que Zé? Pergunta meu pai curioso.

- Nem lhe conto, “homi”, era uma jiboia, mas não era qualquer jiboia, era A JIBOIA. Fala Zé abrindo os braços tentando mostrar o tamanho do réptil.

- Quantos metros tinha a jiboia Zé? Pergunta meu irmão mais velho.

- “Homi”, pense numa lapa de bicha grande, era “raciada”, tinha uns 15 ou 20 metros “facin”, a danada já estava me enrolando, com toda força, eu dando porrada nela com toda força para ela me “sortar”, quando vejo, algo puxa meu outro pé, tentado arrancar minha bota. Fala Zé Bolacha, todo afoito.

Até a pobre da minha mãe, estava curiosa e pergunta:

- Era o que Zé no outro pé?

- Minha senhora, era um gato do mato, mas o bicho era grande, era “raciado”, parecia até uma onça de tão grande. Eu suspeito, que era o tal de gato de botas, deve ter perdido a dele, e queria a minha bota de couro para andar por aí.

- Como você se livrou dele homem de Deus. Pergunta meu irmão caçula, já achando graça.

- “Homi”. Zé Bolacha fazendo uma longa pausa dramática passando o olhar em nossos olhos, um por um.

- Lembrei da faca que papai me deu, vocês sabem, ela é uma faca benta. Lembra Zé Bolacha.

- Sim, claro, você já falou muito dela. Fala todos nós.

- Peguei minha faca benta, meti na barriga da jiboia, matei a danada da jiboia, de dentro da barriga dela pulou um cabritinho bem novinho, bem branquinho, o bicho ainda “tava” vivo “inte” berrou, beeee beee zéeee beeee me agradecendo por ter salvado sua vida do bichinho.

- E o gato Zé? Eu pergunto, para ver até onde vai.

O danado do gato de botas, que no caso estava sem botas querendo roubar minhas botas, fugiu correndo para mata fechada, nunca mais vi o bicho.

- Fim da estória, a jiboia morreu, o gato fugiu, e o carneirinho foi salvo. Falou meu pai.

- Ei, você pensa que acabou, acabou não, quando eu desci da mangueira, quando pensei que já tinha escapado de todo perigo, que apareceu? Pergunta Zé.

- Quem? Todos nós perguntamos.

- Um urso polar. Responde Zé Bolacha.

Daí eu não aguentei:
- Zé Bolacha, uma jiboia, um gato do mato e o cabritinho pode até ser, são bichos que tem aqui no sertão, mas urso polar, animal lá do Polo Norte aqui nesse braseiro do sertão???

Mas Zé Bolacha não perdeu a pose e disse:
- Eu também me perguntei, cheguei perto do bicho, peguei nas orelhinhas de dele, e perguntei: O quê que o senhor está fazendo aqui danadinho??? Zé Bolacha falando como se estivesse questionando uma criança pequena.

Todos caíram na gargalhada, Zé Bolacha não tem jeito mesmo.

Fonte: Redação OpenBrasil.org
Foto: A/D - Arte OpenBrasil.org

Histórias de Alpendre - OpenBrasil.org

Postagens mais visitadas

Uma Carta Para Você