HISTÓRIAS DE ALPENDRE

A Onça e o Cordeiro



Estava o cordeiro a beber num pequeno córrego, quando apareceu uma onça de aspecto horrendo de colocar medo em qualquer um.

- Que desaforo é esse, turvando a água que venho beber? - disse o monstro arreganhando os dentes. Espere, que vou castigar tamanha má-criação!…

O cordeirinho, trêmulo de medo, respondeu com inocência:

- Como posso turvar a água que o senhor vai beber se ela corre do senhor para mim?

Era verdade aquilo e a onça atrapalhou-se com a resposta. Mas não perdeu tempo.

- Além disso - inventou ele - sei que você andou falando mal de mim o ano passado!

- Como poderia falar mal do senhor o ano passado, se nasci este ano?

Novamente confundido pela voz da inocência, a onça insistiu:

- Se não foi você, foi seu irmão mais velho, o que dá no mesmo!

- Como poderia ser meu irmão mais velho, se sou filho único?

A onça furiosa, vendo que com razões claras não vencia o pobrezinho, veio com uma razão de onça faminta:

- Pois se não foi ano passado, se não foi seu irmão, foi você que falou mal de mim ontem aqui nesse córrego!

O inocente corderinho argumentou mas uma vez:

- Mas senhor como pode ser? Minha mãe e eu chegamos aqui nesta fazenda hoje pela manhã, eu sair de perto dela caminhando para conhecer melhor a fazenda, e parei aqui no córrego para saciar minha sede, é a primeira vez que venho aqui!

A onça furiosa já sem argumentos exclamou:

-Grrr, também para alguém que dá tantas desculpas só pode ser culpado!

E — nhoc! — e matou o pobre cordeiro.

Moral da história
(1) Contra a força não há argumentos.
(2) O tirano sempre vai encontrar um argumento capaz de justificar sua tirania...

Fonte: (O Lobo e o Cordeiro) Esopo/Monteiro Lobato, versão e adaptação por OpenBrasil.org
Foto: A/D - Arquivo OpenBrasil.org

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