HISTÓRIAS DE ALPENDRE

Mentira Difícil



Dia de sábado na cidade de São Vicente, na região do Seridó é dia feira livre. Dia de colocar o papo em dia com aquele amigo que mora em uma fazenda distante, falar com o primo, prima, tio, tia e todos os parentes que no longo da semana não se tem a oportunidade de prosear por conta do trabalho ou a distância, aproveitando para tomar uma e por aí vai.

Zé bolacha chega na feira logo cedo, e encontrou seu primo Antônio. Papo vai, papo vem, até que chega o filho de Antônio, Marcos.

- “Zé bolacha, esse aqui é meu filho Marquinhos, lembra dele?”

- “Lembro demai, faz tempo que num lhe vejo”. Responde Zé.

- “Ele faz faculdade na capital, menino inteligente que só ele”. Continua a falar orgulhoso Antônio.

- “Mas me diga aí seu menino, lá capital tem ladrão mai brabo que onça com fome no sertão? ” Indaga Zé bolacha.

- “Na cidade grande tem muitos ladrões sim, mas felizmente nunca tive o desprazer de um ladrão cruzar meu caminho”. Responde Marcos.

- “Graças a Deus. “ Fala seu pai.

- “Oh Zé, você já viu onça selvagem nessas matas? ” Pergunta Antônio.

- “O quê?!” Fala Zé bolacha afoito para contar mais uma das suas.

- “Rapaz, nem lhe conto” Continua ele.

- “Há muito tempo atrás, eu tava tirando lenha na mata, perto de um serrote lá na fazenda, deixei o machado num canto e fui beber água na minha cabaça que estava debaixo de um juazeiro, quando levantei a vista, vi uma lapa de onça arreganhando os dentes assim para mim homi”. Fala Zé bolacha mostrando os dentes para seu primo.

- “Foi mesmo Zé?!”. Fala Antônio interessado na estória.

- “Homi, eu estava longe do meu machado, não estava armado, então matutei, vou virar comida de onça não, e sai correndo, correndo, mai correndo muito ligeiro...E a onça pega e não pega atrás de mim, na frente tinha um lajeiro de pedra de uns dois metros de altura, matutei ligeiro e pulei esse lajeiro daí onça ficou para trás”. Relata Zé todo orgulhoso da sua proeza.

- “O senhor me desculpe, mas se o senhor pulou essa pedra de dois metros de altura, a onça pulava também, me perdoe, mas eu estudei sobre esses felinos na faculdade. ” Retruca Marcos questionando tal feito.

- “É Zé, o menino é sabido, eu lhe disse”. Fala Antônio exaltando e passando a mão na cabeça do seu filho.

- “Não, mas a estória ainda não acabou”. Fala Zé meio sem graça.

- “Daí a onça pulou, e continuou correndo atrás de mim, quando ela estava quase me alcançando, pulei por baixo dun espinheiro bem grande, bem fechado sai do outro lado, e a onça ficou para trás”. Completa Zé satisfeito com desfecho da estória.

- “O senhor me desculpe novamente, mas se o senhor pulou por baixo de um espinheiro, a onça passava também, ora a pele humana e fina, a da onça e grossa, ela com certeza passava com facilidade no referido espinheiro.” Retruca Marcos novamente.

- “É Zé.” Fala Antônio logo interrompido bruscamente por Zé bolacha.

- “Sei, sei, inteligente, já sei, mas a estória não acabou aí não. “

- “Muleque chato de fala esquisita”. Fala Zé resmungando.

- “O quê Zé, o que você falou aí hein?”. Pergunta Antônio.

- “Nada não, homi de Deus, deixe eu terminar a estória, a onça passou também por debaixo do espinheiro e continuou correndo atrás de mim, bicha corria ligeira feita gota serena, quando tava quase me pegando, pulei dentro do açude lá de papai, você sabe primo, o açude de papai é grande e fundo, e nesse ano tava cheio pela boca de água, sai nadando ligeiro feito peixe, daí a onça ficou para trás.

- “Senhor.”

- “Lá vem dinovo seu menino!”

- “Mas se o senhor pulou no açude e saiu nadando, a onça pulou também, pois esse felino, corre muito, salta muito e nada muito. “

- “É Zé.”

- “Já sei Toim, seu menino é sabido e que saber mais, ele é muito chato, para terminar a estória a onça me comeu, tô dentro da barriga da onça, e vocês dois vão pros quintos dos inferno. Esbravejou Zé bolacha indo embora com raiva.”

Fonte: Redação OpenBrasil.org
Foto: A/D - Arquivo OpenBrasil.org

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